Infância / A minha história era mais bonita e eu não sabia

Escrevi dois textos, tempos atrás em um outro blog, sobre um pouco de minha infância. E hoje, dia das crianças, resolvi {re} publicá-los por achar a data e os textos pertinentes! Da minha infância, não tenho o que reclamar, foi dividida em muita brincadeira na rua ou na casa da avó junto dos primos e os livros & histórias em quadrinhos nos dias chuvosos… em uma época em que criança não nascia querendo um tablet e não fazia birra para ganhar smartphones de presente. Criança era criança e ponto final.

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Entre Nuvens – “Tra Le Nuvole”, André Neves.

INFÂNCIA

Não tenho as milhares de experiências para contar. Que em demasia vejo por aí. Aqui é a terra onde tudo podemos escrever e esperar que alguém do outro lado de um emaranhado de fios leia e se encante. De minha infância, posso recordar e recortar um pedacinho de memórias entrelaçadas entre uma casinha de madeira cor de rosa e chão de cimento batido. Ao redor do fogão a lenha que fervia a água para ser despejada em um coador de pano marrom, por cima daquele café cheiroso que se misturava posteriormente ao leite de cabra. A varanda estreita que nos dava a visão de um quintal de terra, onde ciscavam as galinhas da criação do meu tio e ao mesmo tempo as crianças corriam, de lá para cá, a procura de um esconderijo, pois a cantiga do “balança caixão” já estava em seu final “… dá um tapa na bunda e vai se esconder”.

Das experiências que já desfrutei em minha vida, nenhuma é mais saborosa que a da infância.


A MINHA HISTÓRIA ERA MAIS BONITA E EU NÃO SABIA

Escrevo porque as palavras transbordam. Como um balde, esquecido debaixo de uma torneira aberta durante uma madrugada inteira. Quieto, sozinho, imóvel. E enquanto todos dormem, a água se aconchega dentro do recipiente plástico e quando não cabe mais, transborda, forma cascata que “deságua” no tanque e se esvai ralo abaixo, canalizando e não desperdiçando, mas colocando “para fora” tudo o que não cabe mais. No começo era uma criança que se afugentava nos livros de ensino médio da irmã quatro anos mais velha, neles pude ter meu primeiro contato com Carlos Drummond de Andrade e seu poema Infância. Depois era aquela enciclopédia azul de letreiro dourado, um livro para cada duas ou três letras do alfabeto. Escolhia um aleatoriamente, deitava na cama e o abria em qualquer tema e simplesmente lia. Na maioria das vezes, as palavras eram apenas lidas, e “não-entendidas”, dependia do tema que por um acaso do destino se punha em páginas abertas a minha frente. Cresci e descobri a biblioteca da escola. Aí foi amor a primeira vista e o recreio tinha seu tempo minúsculo dividido entre a fila do lanche e a biblioteca. Era lindo olhar aquelas estantes, cheias de livros. Queria ter lido todos. Sem exceção. Na aula de literatura, fazia questão de sentar na primeira carteira do lado mais próximo a carteira da professora. Fui intitulada puxa saco. Sinceramente, não dava a mínima importância para o que os outros falavam, queria absorver o máximo de informação que pudesse, eram valiosas. Adorava quando era aula de redação. Pude aprender que eu poderia fazer muito mais do que somente ler. Aprendi também a produzir. Concursos de poesia e escrita? Participei de todos e tenho um troféu em casa, acreditem. Escrevi “clandestinamente” uma redação para outra pessoa que ganhou um concurso por ela (me senti uma “ghost-writer”). E me dei conta de que sou como o balde, que descrevi primordialmente nesse texto e que não quero fechar essa torneira por um bom tempo. Pois as palavras, transbordam e eu, sou feita delas.

“E eu não sabia que a minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé”

(trecho final do poema de Carlos Drummond de Andrade, Infância – o qual li pela primeira vez aos 10 anos, nos tais livros de ensino médio da minha irmã mais velha)

*Ilustração por André Neves.


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